A crise começa na mente antes de aparecer no balanço

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Uma pergunta que me acompanha desde a época em que eu era estagiária em um escritório de insolvência é por que empresários inteligentes demoram para agir quando percebem que os negócios não vão bem?

Existe uma cena que se repete com frequência na minha atuação com empresas em crise. O empresário chega para a primeira reunião preocupado e geralmente quando a situação está em ponto crítico.

          Os sinais estavam lá: redução do faturamento, aumento do endividamento, perda de clientes, dificuldade para cumprir compromissos, conflitos internos, fornecedores inseguros e noites sem dormir.

A crise dificilmente surge de um dia para o outro. Ela normalmente se instala de forma silenciosa. Se o empresário percebe os sinais, por que demora tanto para agir?

Procurando resposta a este comportamento repetitivo, percebe-se que a resposta, muitas vezes, não está na contabilidade, no mercado ou no direito. Está na forma como nossa mente reage diante da incerteza.

          O maior obstáculo nem sempre é financeiro

Ao longo de mais de três décadas assessorando empresas em momentos de dificuldade, aprendi que a demora na tomada de decisão raramente decorre da falta de conhecimento técnico.

Os empresários conhecem profundamente seus negócios. Sabem vender, negociar, produzir e administrar. O problema surge quando a crise deixa de ser apenas um desafio empresarial e passa a representar uma ameaça àquilo que construíram durante anos. Nesse momento, razão e emoção deixam de caminhar na mesma direção.

A professora Susan David, da Harvard Medical School, descreve esse fenômeno por meio da Teoria da Agilidade Emocional. Segundo ela, em situações de elevado estresse, nossa mente tende a entrar em ciclos repetitivos de pensamentos negativos, o que ela define como verdadeiros “parafusos de pensamento” que consomem energia mental e reduzem nossa capacidade de tomar decisões equilibradas.

Em outras palavras, não é apenas a empresa que entra em crise. O próprio empresário também entra.

          A armadilha da negação

Esse comportamento é mais comum do que parece. O empresário observa a queda nas vendas, mas acredita que o próximo trimestre será melhor. Percebe que o caixa está cada vez mais apertado, no entanto espera que um grande milagre possa acontecer e resolver o problema.

As conversas difíceis com bancos, fornecedores, sócio e com a própria família são evitadas, prefere acreditar que tudo voltará ao normal. Nota-se que esse comportamento está mais para um rata-se de um mecanismo de proteção.

Reconhecer a gravidade da situação significa admitir que decisões difíceis precisarão ser tomadas. E toda mudança importante envolve medo, insegurança e sensação de perda.

Quanto maior o vínculo emocional do empresário com sua empresa, maior pode ser a dificuldade em aceitar que aquele modelo de negócio precisa mudar.

          Quando a emoção passa a dirigir a empresa

Susan David não propõe eliminar emoções negativas. Pelo contrário, essas emoções como medo, ansiedade frustração fazem parte da experiência humana, especialmente em momentos de crise.

O problema começa quando essas emoções passam a comandar as decisões. Existe uma diferença importante entre pensar: “Vou perder tudo” e reconhecer:  “Estou tendo o pensamento de que posso perder tudo.”

Pode parecer apenas um detalhe linguístico. Ao separar o pensamento da realidade, o empresário recupera espaço para analisar fatos, avaliar cenários e decidir com maior objetividade.

Essa capacidade de criar distância entre a emoção e a decisão é justamente o que Susan David chama de agilidade emocional.

          Quatro passos para recuperar a capacidade de decidir

A teoria da Agilidade Emocional oferece um caminho interessante para quem enfrenta momentos de grande instabilidade. Adaptando seus conceitos à realidade empresarial, é possível extrair quatro atitudes práticas:

  1. Olhar a realidade de frente

O primeiro passo é abandonar a negação. Isso significa aceitar os indicadores da empresa como eles realmente são, sem minimizar os problemas nem alimentar expectativas irreais. Isso faz com a crise não se torne maior e permite que ela seja tratada enquanto existem alternativas.

  1. Separar emoção dos fatos

O empresário não é a sua empresa. Um resultado negativo não define sua competência, nem uma dificuldade financeira representa necessariamente um fracasso pessoal. Infelizmente muitos por vergonha deixam de buscar ajuda.

Quando se separa a identidade da situação vivida, amplia-se a capacidade de enxergar soluções. Essa mudança reduz o peso emocional das decisões e favorece análises mais racionais.

  1. Decidir de acordo com os valores da empresa

Toda crise exige escolhas difíceis, tais como: renegociar contratos, reduzir custos, reestruturar operações, buscar novos investidores.  Essas decisões não devem ser tomadas apenas para resolver o problema imediato, devem estar alinhadas aos valores e ao propósito da empresa, preservando aquilo que realmente importa: sua continuidade, sua reputação, seus relacionamentos e sua capacidade de gerar valor no longo prazo.

  1. Dar o próximo passo

A crise costuma gerar um sentimento de paralisia. O empresário acredita que precisa encontrar a solução perfeita antes de agir. Na prática, grandes reestruturações raramente começam com grandes decisões.

Elas começam com pequenos movimentos, como a busca de um diagnóstico, conversa com especialistas, revisão dos processos e a construção de um plano de reestruturação.  Cada passo reduz a incerteza e amplia as possibilidades de recuperação.

Quanto antes o empresário consegue superar a barreira emocional que o impede de agir, maior é o espaço para decisões estratégicas e menor a necessidade de medidas mais traumáticas.

 

A crise não precisa ser o capítulo final da história de uma empresa. Ela pode ser reescrita e transformada.  O primeiro passo é reconhecer a realidade e decidir agir.

É justamente nesse momento que instrumentos como a mediação empresarial e a negociação estruturada como ferramentas da reestruturação empresarial ganham relevância. Elas ampliam o espaço para o diálogo e permitem que decisões estratégicas sejam tomadas antes que a deterioração financeira reduza as alternativas disponíveis. Quanto mais cedo são utilizadas, maior a probabilidade de preservar valor e garantir a continuidade da empresa.