Crise empresarial: reagir ou esperar?

Duas notícias publicadas pelo Pipeline (Valor Econômico) me chamaram a atenção porque, lidas em conjunto, revelam um paradoxo importante sobre a forma como lidamos com a crise empresarial no Brasil.

De um lado, o artigo “Antes da insolvência, o debate que o Brasil evita” provoca uma discussão necessária: “Poucas afirmações geram tanta convergência entre profissionais da área de insolvência quanto: “no Brasil, a recuperação judicial quase sempre começa tarde demais”. Este trecho é parte de conteúdo que pode ser compartilhado utilizando o link https://pipelinevalor.globo.com/mercado/noticia/antes-da-insolvencia-o-debate-que-o-brasil

De outro, a história da Lojas MM, uma varejista de móveis que atravessou um período extremamente difícil para o setor e se aproxima dos 50 anos preparando a terceira geração, veja aqui.

O que chama atenção nesse segundo caso? Controle permanente de despesas, capex baixo, expansão moderada, preservação de caixa e cautela na concessão de crédito.

As duas notícias parecem falar de assuntos diferentes. A meu ver, falam exatamente da mesma coisa: o tempo da decisão.

Quando pensamos em empresas em crise, nosso olhar ainda costuma se voltar para o momento em que o problema já se tornou jurídico: inadimplência, execuções, recuperação extrajudicial, recuperação judicial.

Conforme já sinalizado por mim em matérias publicadas no LinkedIn e no meu blog, a crise empresarial começa muito antes. Ela se inicia quando:  as margens diminuem, o caixa aperta, o endividamento cresce e determinadas premissas do negócio deixam de funcionar. E, principalmente, quando esses sinais aparecem e as decisões necessárias são adiadas.

É aqui que vejo o paradoxo.

Embora a reforma da Lei nº11.101/05 tenha trazido ganhos para tratar a insolvência, há que se desenvolver uma cultura empresarial mais voltada à antecipação da crise.

Isso exige diagnóstico precoce, informação financeira confiável, governança, capacidade de rever estratégias e disposição para iniciar conversas difíceis com credores, sócios e demais stakeholders enquanto ainda existe espaço de negociação.

No artigo “A crise começa na mente antes de aparecer no balanço”, Leia “A crise começa na mente antes de aparecer no balanço” analiso como a negação, o medo e o vínculo emocional com a empresa podem interferir justamente no momento em que decisões difíceis precisam ser tomadas. Talvez precisemos ampliar o debate sobre insolvência no Brasil e discutir como ajudá-las a agir antes que a crise limite suas escolhas, pois em reestruturação empresarial, tempo também é valor.